Não há mais nada a fazer – e ela já sabia disso.

Ela abriu o notebook e viu a página em branco que deveria ser preenchida com coisas que entalavam em sua garganta formando um nó. Do peito surgiu um aperto e inevitavelmente seus olhos encheram-se de lágrimas. Aquele não havia sido um de seus melhores dias. A falta que ela vinha escondendo há tanto tempo e tentando enganar até a si mesma, sufocou. Um filme de todos os últimos anos passou pela sua cabeça e ela só conseguia pensar que rumo tudo teria tomado se algumas atitudes fossem diferentes. Ele errou. Ela errou. Jurava pra si mesma de que não havia arrependimento algum, mas no fundo sabia que faria o que fosse pra ter tudo de novo. E ela, que nunca soube lidar com partidas, chegava a se odiar algumas vezes por não ter dito tudo o que precisava a tempo. Sentiu um alvoroço no estômago e imediatamente lhe veio ele à cabeça. Sentiu uma vontade doida de chamar, mas não sabia o que esperar. Segurava os dedos para que aquelas palavras não fossem digitadas, mas algo por dentro a impulsionava a correr atrás. O máximo que poderia ganhar era o que já tinha: o silêncio! Por que não tentar quebra-lo¿ O que perderia caso não desse em nada¿ Algumas palavras duras talvez. Mas “quebrar a cara” já não era novidade e nada poderia ser pior do que já estava sentindo. Fechou os olhos e respirou fundo, metade dela era medo e a outra metade era impulso. Pior não podia ficar. Ou podia¿ E então, em voz alta soltou: É a última vez! Será¿ Depois de tantas idas e voltas não havia certeza alguma. Mas pra quem já tentou tantas vezes, não faria diferença. Abriu a conversa e digitou com ansiedade. Com os olhos semicerrados, enviou. Datas comemorativas eram sempre muito especiais e, mesmo que ele nunca se lembrasse, só de saber que hora ou outra apareceria, já era motivo pra que abrisse um sorriso e se sentisse abençoada por ter encontrado pessoas que a ajudaram tanto a crescer como pessoa – ele, provavelmente, a maior delas. Então, quando percebeu que não havia mais nada a fazer, apenas fechou os olhos e desejou que ele tivesse tudo aquilo que havia proporcionado a ela por tanto tempo. Adorava se fazer de durona, mas sabia que ao colocar a cabeça no travesseiro não conseguiria segurar mais nada do que guardava e, quando seus olhos estivessem cansados demais, ela dormiria. Cruzou os dedos e esperou que um dia deixasse de ser tão boba. Alguns dias são difíceis, mas eles sempre passam. Cada amanhecer é uma nova chance pra fazer tudo àquilo, de que não nos orgulhamos, diferente.

Nayara Rosolen

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