Primeiro Ato

Havia chegado o grande dia. Passaram-se dois meses entre a apresentação dos diretores, os testes para que descobrissem quem se encaixaria melhor em cada personagem e as dificuldades encontradas por cada um até o entender do verdadeiro significado de teatro. Mas nem mesmo a ansiedade desse período, chegou perto do real sentimento de que há menos de uma hora subiríamos ao palco pela primeira vez, com a plateia quase lotada.

Aquela salinha onde já havíamos entrado antes para alguma aula de técnica vocal, agora estava preenchida com toda a energia trazida por cada um. As cadeiras brancas empilhadas e encostadas no fundo da sala nos lembravam as inúmeras vezes usadas como apoio para o cenário. O sofá com aparência antiga quase não podia ser visto embaixo de todas as bolsas, roupas e adereços que logo estariam em cena. O espelho que cobria metade da parede branca agora refletia olhares concentrados, com corpos e mentes claramente inquietos.

O primeiro sinal foi ouvido.

Um “Pai Nosso” foi rezado em coro, na roda fechada, com as mãos dadas e os pés encostados uns nos outros. Uma corrente para que a boa energia não saísse do nosso meio, nos disse os diretores – o teatro tem desses rituais que nos contagiam. Com os olhos fechados, puxamos toda energia positiva. Ao abri-los, soltamos as palavras enquanto olhávamos uns nos olhos dos outros. “Junto minha mão à sua e meu coração ao seu, para que juntos possamos fazer aquilo que sozinho eu não consigo”, estávamos conectados.

Após um grito conjunto de “Merda” (boa sorte para os atores), os olhos que antes se encontravam tensos, agora transbordavam brilho. A alegria de poder estar fazendo o que se ama. Entre um abraço e o outro, chegou aquele que junto carregava olhos emocionados. A emoção de alguém que mesmo depois de uma vida com casamento, filhos e um emprego convencional, resolveu dar ouvidos a um sonho de adolescência.

O segundo sinal soou deixando todos ainda mais inquietos.

Enquanto subiam um a um, com todo cuidado para não alertar a plateia que se encontrava na frente das cortinas, mil pensamentos rodeavam a cabeça. Desde aquele desejo inicial de estar em cima do palco, algo quase impossível anos atrás, até aquele momento. O solo de madeira, já gasto pelos inúmeros espetáculos apresentados, fazia imaginar quantos sonhos já haviam ali se concretizado. O cenário simples, com apenas um cubo centralizado e uma cadeira antiga logo ao lado, traduziam os 13 seres que ali se apresentariam. Um pouco “crus” nessa arte que tem um peso social tão importante, como o de colocar em reflexão os desafios encontrados no dia a dia. Mas prontos para serem os melhores que poderiam.

Após o terceiro sinal e o abrir das cortinas, todo o nervosismo e ansiedade se transformaram em um verdadeiro sentimento de conforto. Estavam “em casa”.

5 comentários sobre “Primeiro Ato

  1. Que texto lindooooo!!
    A última vez que pisei no palco foi em Outubro deste ano e é exatamente isso. Cada lembrança boa que ler este seu texto me trouxe, quase senti aquele frio na barriga novamente.
    Nossa oração é um pouco diferente, nós usamos: “Eu seguro sua mão na minha, para que junto possamos fazer, tudo o que eu não quero e não posso fazer sozinho”.

    Parabéns pelo texto, amo muito teatro!

    Curtido por 2 pessoas

    • Que gostoso, é muito boa a sensação mesmo né?? Acabou faz uma semana e já estou com saudades 😦
      Essas orações são as coisas mais lindas! Teatro é puro amor ❤
      Fico muito feliz por ter gostado do texto, muito obrigada!!!
      Beeeijos

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  2. […] Essa eu já sabia que iria acontecer. Quando respondi essa TAG já estava no processo de preparação para a primeira peça do meu curso e foi lindo. Gostei de estar no palco muito mais do que eu imaginava e quero estudar cada vez mais, porque ainda preciso melhorar muuuito, principalmente a questão da timidez. Contei em um post do 7S como foi a experiência. E em um texto também. […]

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