Conto de Natal: Palavras e Melodias (Parte 1)

Leia escutando: All I Want For Christmas Is You – Michael Bublé

Nova York, 24 de dezembro de 2016.

O cheirinho de comida caseira se espalhava pela casa toda. Depois de muito empenho durante um dia todo passando ferramentas de lá para cá, puxando fio daqui e dali, carregando escada de um lado para o outro, finalmente tudo parecia tão iluminado quanto a data merecia. A árvore, tão cheia de presentes como nunca esteve, mostrava que muita coisa havia mudado nos últimos anos. Os choros vindos de longe, a correria para todo canto e as gargalhas em um coro tão cheio, de um jeito que só o Natal proporcionava, não faziam enganar.

Seu Augusto tinha as costas cansadas, um olhar pesado, as mãos um pouco trêmulas, mas o coração forte como nunca, ainda que sentisse a falta dela. Talvez a única pessoa que conseguiu amar com cada batida de seu coração. Seu sorriso em uma das fotografias na estante da sala o fez sentir seus olhos umedecerem. Sorriu enquanto se aproximava do quadrinho, passou os dedos pelo seu rosto em cima do vidro e sussurrou algum código que só ela entenderia, se estivesse ali. Ao girar sua cabeça levemente para o lado viu seu velho piano que não soava som algum já há um tempo. Fechou os olhos e soltou um sorriso fraco ao sentir as lembranças se aproximarem.

– Toca alguma coisa para mim – dizia ela insistentemente.

Estava deslumbrante naquele vestido vermelho que ia até seus joelhos, parecia tão cheia de vida, tão jovem, sonhadora. Seu sorriso era o mais belo que ele já havia conhecido, junto com seus dentes tão brancos quanto a neve e seus olhos grandes que entravam em sintonia com os lábios. Os cabelos negros ondulados que iam até quase a cintura era apenas o toque final, formando o sonho que ele nem sabia que tinha. Era impossível não se render.

– Tudo bem, mas só porque é você quem está pedindo. – sorriu um pouco tímido.

O garoto, que havia descoberto seu talento cedo demais se comparado aos amigos de escola, tinha se acostumado a dar seu show nas noites nova-iorquinas, mas fazer shows particulares não era o seu forte. Por mais que soubesse soltar os dedos nas teclas tão naturalmente quanto piscar os olhos, essas situações intimistas ainda o causavam insegurança, especialmente com ela. Respirou fundo e começou a fazer vibrar o piano em seus dedos. A melodia saía leve, como um vento, fazia com que todos os problemas evaporassem naquele momento. A garota das covinhas mais atraentes que ele já tinha visto, olhava encantada com cada uma das notas. Se soubesse que haviam sido feitas especialmente para ela…

Um grito fez com que seus pensamentos voltassem para a realidade. O velho olhou em volta buscando saber da onde surgia e avistou os dois caçulas sendo socorridos de uma briga sobre de quem era a vez de manusear o controle do vídeo game. Balançou a cabeça em reprovação, mas lembrando de quem um dia também já fora assim. Um riso foi inevitável. Olhando para o seu amigo de longa data novamente, caminhou até ele e sentou-se no banco de acento almofadado feito por sua mulher no mesmo ano em que trocaram alianças. Abaixou a cabeça assoprando a poeira que se encontrava nas teclas, hesitou antes de tocá-las, mas soltou os dedos com toda a saudade que sentia por dentro. Começou a tocar como se fosse a primeira vez, 40 anos atrás.

Por um bom tempo, ela apenas escutou atenta aos movimentos que ele fazia. Com o queixo apoiado em suas mãos, analisava cada expressão solta com as notas. Mas não demorou muito para que saísse rodopiando pelo salão acompanhando o ritmo da música. Seu vestido rodado flutuando com seus passos de um lado para o outro. Ele ria com as caras que ela fazia. Ninguém nunca o tinha feito rir tão bonito, rir com a alma e o coração que pulsava forte. Não sabia ainda se por ela ou pela situação que o deixava tenso. Ao tocar as teclas pela última vez, finalizando, ela fez um gesto de agradecimento que o fez ficar levemente rosado. Um dos efeitos que causava. Ao levantar-se, ela correu até ele e o abraçou tão forte, como nunca o fizeram antes. Ele sentia seu coração em ritmo forte, junto com o dele.

– Eu poderia escutá-lo tocar pelo resto da vida – sussurrou em seu ouvido.

E foi nesse momento que seus olhos se encontraram, fazendo com que de alguma forma estivessem conectados muito além de seus corpos próximos. Suas almas estavam aconchegadas e não sentiam mais frio no meio daquele rigoroso inverno, mas não era pela lareira que fazia parte do cenário…

– Que música é essa, vovô? – Perguntou um de seus netos mais velhos enquanto se aproximava do piano.

Augusto voltou de suas lembranças em um pulo e parou de tocar automaticamente. Olhou para baixo vendo o menino sentado entre algumas almofadas no chão e passou a mão pelo seu cabelo se recompondo. Sorriu e respondeu com todo o carinho que guardava consigo.

– Essa foi a primeira música que eu compus para a vovó, um pouco depois de nos conhecermos. – assentiu com a cabeça.

– E como foi que vocês se conheceram? – Ergueu a sobrancelha curioso.

Seus cabelos brancos voaram com o vento que surgiu da fresta da janela. Ele olhou seguindo para as estrelas e pareceu ter se perdido em algum ponto indefinido do céu. Até que disse distante em seus pensamentos:

– Tudo começou no ano de 1976, nessa mesma época do ano…

(Continua…)

5 comentários sobre “Conto de Natal: Palavras e Melodias (Parte 1)

  1. Gente, que TIRO!
    Se eu amei? Demais!
    Nay, estou impressionada até agora com o quanto você escreve bem. Tamanha sutileza e delicadeza!
    E o clima Natalino combinou perfeitamente com tudo isso. Lembrou-me do Tio Nicholas Sparks, com essa coisa de amor interrompido e recordações rs ❤ ❤

    Curtido por 1 pessoa

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