Conto de Natal: Palavras e Melodias (Parte 3)

(Leia a parte 2)

Leia escutando: Santa Claus is coming to town – Michael Bublé

Nova York, 24 de dezembro de 1976.

Nas últimas três semanas, Augusto havia passado de bar em bar mostrando sua música para as pessoas. Em alguns casos até conseguia alguns trocados, já em outros mal ganhava uma refeição. Nada tinha começado tão bem quanto ele sonhava, mas uma oportunidade tinha aparecido e ele esperava que aquela fosse sua grande chance de começar a crescer.

Em duas ou três ocasiões tinha chegado a tocar em um dos bares mais renomados do bairro. De início, se sentiu fora da caixinha. As pessoas eram elegantes, daquele tipo que parece que já nasce com a postura ereta e calma, como se vivessem em slow motion. Trocavam olhares, alguns discretos sorrisos, mas na maioria das vezes não conseguiam enxergar quem tocava as melodias que usavam para trocar alguns passos com seus parceiros. De qualquer forma, era o tipo de gente que também poderia lhe proporcionar algumas grandes e boas oportunidades. E era li que passaria sua noite de Natal.

Saiu de casa um pouco antes do necessário, afim de conseguir conversar com sua família. Discou os números no primeiro telefone público que encontrou e sentiu seu peito apertar de saudade ao escutar a voz de sua mãe. Ainda que eles estivessem preocupados com o garoto, sabiam que nada o faria voltar atrás. Era teimoso e persistente. Depois de ficarem longos minutos naquele cansativo papo sobre ele estar se cuidando e a falta que fazia, desligou e correu o quanto antes para o trabalho.

Ao entrar pela porta viu que o lugar, que já era elegante, havia se transformado em uma cena de filme. As mesas todas com toalhas vermelhas e decoradas de acordo com a data, tecidos e mais tecidos desenhavam no teto caindo pelas laterais das paredes. Todos os funcionários estavam igualmente uniformizados e da cozinha vinha um cheirinho especial. Era cheirinho de Natal. Sentiu seu estômago roncar e passou a mão pela barriga rindo enquanto se dirigia ao piano. Estava brilhando como nunca.

Sentou-se no banquinho na frente das teclas e começou a tocá-las sem muito nexo. Seus dedos iam de um lado ao outro como se estivessem aquecendo para uma grande noite. E era. Mesmo sem pensar muito o garoto parecia tocar algo ensaiado. Quando menos percebeu, estava soando a mesma melodia que vinha martelando em sua mente incansavelmente há dias. Fechou seus olhos e podia imaginá-la ali, a garota de olhos misteriosos.

Ela aparentava ser da sua idade, talvez uns dois ou três anos mais velha. Sempre chegava no mesmo horário, por volta das 20h30. Mesmo muitos homens a oferecendo companhia para jantar, a resposta era sempre a mesma: um balançar de cabeça negativo e uma virada de costas. Ela pedia um ou dois drinks e mergulhava em seu bloco de notas, deixando o local bem próximo de fechar. Por mais que pudesse parecer grosseira com suas recusas, Augusto pensava que ela era uma dessas raras que gostariam de algo muito mais profundo do que apenas algumas palavras trocadas com um desconhecido que acabaria levando-a para a cama e se esquecendo de seu nome na manhã seguinte. Além do mais, aparentemente era a única que havia notado a presença do garoto enquanto tocava. Isso já havia se tornado rotina há alguns dias, quando aqueles olhos penetraram nos do músico pela primeira vez. Ainda que por poucos segundos, ele sentia que significava muito mais do que aparentava. E esperava acabar com essa agonia naquela noite, caso ela aparecesse. Ele torcia para que sim.

Abriu os olhos atentos ao ouvir o barulho alto das portas sendo abertas. Todos os garçons estavam posicionados e aos poucos foram se movimentando com a chegada dos clientes. Eles os direcionavam para suas devidas mesas que deviam estar reservadas. As reservas esgotaram 5 meses antes da data. Guto agradeceu por sua musa inspiradora gostar mais do bar do restaurante, que ficava livre para a chegada das pessoas.

A cada novo andar de saltos altos, girava a cabeça em alerta para a porta afim de reconhecê-la. O relógio marcava 19h37. Ao que tudo indicava seria uma grande e longa noite…

(Continua…)

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